O calendário de chocolate abre uma portinha e dá um bombom. Dura três segundos e acaba ali. O calendário de oração tem as mesmas 24 portas, de 1 a 24 de dezembro, e termina na consoada. A diferença não está no cartão, está no que se põe lá dentro: um versículo, uma linha de oração, um gesto pequeno, um nome de Jesus. Feito assim, o Advento passa a ter um ritmo que a família reconhece.
Não é preciso comprar nada de especial. Com envelopes de papel, um cordel e uma noite de novembro chega. E convém que sobre tempo para a novena de Natal e para a consoada, sem que o calendário se torne mais uma tarefa.
O de chocolate conta os dias até ao Natal com açúcar. O de oração conta os dias até ao Natal com espera. As duas coisas têm 24 portas e terminam a 24 de dezembro, mas uma alimenta e a outra prepara. A Igreja chama a este tempo Advento, e a palavra diz chegada: alguém vem e nós esperamos.
Na prática, isto quer dizer que cada porta deve poder ser aberta em trinta segundos. Se dentro estiver uma frase e um gesto, a criança lê, faz e segue. Se estiver um sermão, fecha-se a porta e ninguém volta amanhã.
Também não precisa de substituir o chocolate. Muitas famílias têm os dois: o de chocolate ao pequeno-almoço, o de papel depois do jantar. Um não anula o outro, e a criança percebe a diferença entre comer e rezar.
Com filhos de idades diferentes, o truque é ter uma coisa para cada um, sem separar por idades em voz alta. Um versículo curto serve para todos. Um gesto concreto, como arrumar os sapatos de alguém ou telefonar a uma avó, dá para o mais pequeno e para o mais velho. E um nome de Jesus, tirado das antífonas do Ó, fica na parede até ao dia seguinte.
As antífonas do Ó são sete, rezadas de 17 a 23 de dezembro: Ó Sabedoria, Ó Senhor, Ó Raiz de Jessé, Ó Chave de David, Ó Sol Nascente, Ó Rei das Nações, Ó Emanuel. São sete portas certas, já com séculos de uso. Nas outras dezassete, um versículo do profeta Isaías ou do evangelho de Lucas chega.
Numa família lusófona, este calendário convive com a novena de Natal, que muitas casas ainda rezam nas noites de dezembro. Não compita com ela: ponha a porta do calendário antes da novena, como quem abre a janela para deixar entrar luz.
1: Isaías 9,1. 2: «Vinde, Senhor, não tardeis». 3: dar um brinquedo a quem precisa. 4: Ó Sabedoria. 5: rezar um Pai-Nosso pelos que estão sozinhos. 6: Isaías 11,1. 7: escrever um cartão a um avô. 8: Ó Senhor. 9: ajudar a pôr a mesa sem pedir. 10: Lucas 1,26-28. 11: Ó Raiz de Jessé. 12: guardar cinco minutos de silêncio. 13: Isaías 40,3. 14: Ó Chave de David. 15: visitar ou telefonar a alguém doente.
16: rezar pelas escolas. 17: Ó Sol Nascente. 18: Lucas 1,39-42. 19: Ó Rei das Nações. 20: perdoar uma coisa pequena. 21: Ó Emanuel. 22: levar bolachas a um vizinho idoso. 23: rezar a novena em família. 24: ler Lucas 2,1-14 antes da consoada.
Não é obrigatório seguir esta ordem. Troque o que não se aplicar à sua casa. O que conta é que cada porta tenha uma coisa só, curta, e que caiba na palma da mão.
Compre 24 envelopes pequenos, do tipo que se usa para cartões, e um rolo de cordel. Num domingo à noite, depois do jantar, corte 24 tiras de papel e escreva uma por envelope. Numere as portas de 1 a 24 com um marcador. Meia hora, talvez quarenta minutos, e está feito.
Depois estenda o cordel na parede da cozinha ou na estante da sala, com dois pregos ou fita adesiva. Prenda os envelopes com molas de roupa ou com um nó simples. Se tiver filhos pequenos, deixe-os numerar e pendurar: o calendário é deles, não é seu.
Guarde uma lista à parte, no telemóvel, com o que está em cada envelope. No dia em que faltar inspiração, consulta e não inventa.
A regra é esta: se um dia falhar, o calendário não fica em atraso. Abre-se a porta desse dia e pronto. Não há dívidas no Advento. Uma família que abre 18 das 24 portas rezou mais do que uma que abriu zero por medo de falhar.
Para o adolescente que acha isto coisa de crianças, não o obrigue a abrir a porta. Peça-lhe outra coisa: que escolha ele uma das 24, ou que seja ele a escrever a do dia 22. Os mais velhos aceitam melhor uma tarefa do que um convite.
E não ponha prémio no fim. Se a 24.ª porta for um presente grande, as outras 23 passam a ser bilhetes para esse prémio. A 24.ª porta é o Menino, e isso chega.
O Advento é tempo de penitência, sim, mas a penitência cristã não é cara fechada. É arrumar a casa para receber alguém. O roxo dos paramentos não é luto, é espera. Por isso o calendário pode ter cor, pode ter riso, pode ter uma criança a correr para o cordel às sete da noite.
E não acaba a 24. Em muitas casas portuguesas a consoada é a 24, com bacalhau e a mesa cheia, e o dia 25 continua. Depois vêm os Reis, a 6 de janeiro, e a árvore ainda fica. O calendário termina na véspera, mas o tempo do Natal só agora começa.
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Sim, de 1 a 24 de dezembro, para terminar na véspera de Natal. É o uso mais comum e o que ajuda a criança a contar. Se quiser incluir o dia 25, faça uma porta separada, maior, com o evangelho do nascimento.
Pode. Muitas famílias põem um bombom pequeno e uma tira de papel no mesmo envelope. O risco é o chocolate ser comido primeiro e o papel ficar esquecido. Se acontecer, leia o papel em voz alta antes de abrir.
Para menores de cinco anos, use só o gesto e uma imagem. Um desenho de uma vela, de um presépio, de um prato. O versículo fica para quando souberem ler. O gesto, esse, já podem fazer: dar, arrumar, abraçar.
Não. A novena é uma oração com estrutura própria, rezada em família ou na paróquia. O calendário é uma porta diária que ajuda a não esquecer. Podem fazer-se os dois, um antes do outro, sem pressa.
Guarde-as num envelope ou num caderno. No ano seguinte, relê-las com os filhos é metade do trabalho feito. E vê-se o que mudou: quem já sabe rezar sozinho, quem já não precisa de ajuda para telefonar à avó.
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